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LEONISMOS

21
Mar20

O Mundo Precisava Respirar

Leonardo Rodrigues

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Ontem saímos pelas 22h para passear a nossa cadela na Mata de Alvalade, e foi incrível. Podia estar a passear à noite num monte alentejano, mas era mesmo no parque ao lado do principal Aeroporto do país.

Estou em isolamento profilático há pouco mais de uma semana, e é com muito pesar que acompanho todos os dias o crescente número de infetados e, consequentemente, mortos. Estou de luto com o Mundo, mas quero tentar alhear-me das mortes e refletir convosco o que está a acontecer de bom e o que podemos retirar disto, ressalvando que em nada reduz o sofrimento atual e futuro. Nada voltará a ser igual, é o que espero.

Escolhi este título porque o mundo precisava mesmo de respirar, e paradoxalmente é uma doença que nos afeta principalmente as vias respiratórias que o está a permitir. O parar e reduzir das atividades humanas está a permiti-lo. Há dias escrevia numa rede social qualquer que somos o sal da terra, mas não temos de o ser.

Reparem que numa questão de dias o ar renovou-se, tornou-se respirável. Não é a minha sensibilidade respiratória que o diz, mas a NASA. As águas de Veneza, que correm nos canais outrora poluídos pela atividade intensa dos barcos, estão mais claras. 

Não imagino um deus como a bíblia ou a igreja o fazem, mas não consigo fugir ao pensamento de que este é o grito que a natureza expele das suas profundezas para dizer que basta! Assim o parece.

A Terra esgota-se. A água doce seca, o solo fica árido, o ar empestado, o peixe esgota-se, as árvores demoram a crescer. Não há infinito por mais que a natureza renove se continuarmos no mesmo loop de consumo e poluição. Ao mesmo tempo sabemos que, ao mudarmos a forma como vivemos, a natureza regenera-se, e nós com ela.

Escolhi Lisboa para viver há 7 anos, e há 7 anos que os meus problemas respiratórios se intensificaram. Sou hipersensível à poluição e calhou-me viver num bairro próximo de um Aeroporto que, até há 3 semanas, tinha voos a cada 2 minutos.

Ontem o ar respirava-se novamente, as árvores podiam emanar o seu perfume sem a necessidade de trabalharem exaustivamente para compensar os escapes dos aviões e dos carros da Av. do Brasil, Gago Coutinho e 2ª circular.  Reduziram-se os sons dos aviões e estão de volta os pássaros que cantavam com a coordenação de uma orquestra, nas árvores que também lhes pertencem. A terra a sarar.

Foi-nos dito que umas atividades são mais importantes que outras, que há muito que não pode ser feito a partir de casa, que temos de fazer tudo de um certo modo. Vemos agora que não é assim.

Penso também que profissões tidas como menores são hoje o pilar para que possamos ficar protegidos nas paredes das nossas casas. Estamos nas mãos dos agricultores já que não produzimos, generalizo, o que comemos. De quem recolhe o lixo e assegura a higiene das nossas cidades. De quem limpa os espaços públicos, que muitas vezes não vemos. Quem está na caixa dos supermercados e das farmácias. Quem assegura a distribuição dos bens essenciais à nossa vivência e sobrevivência. São heróis, tal como os médicos e enfermeiros que estão a enfrentar a batalha das suas (e nossas) vidas.

Espero que retirem disto que não somos nada sem os outros; que a vida em comunidade e liberdade envolve um respeito que está a ser posto à prova; que percebam a importância do ar que respiramos neste momento - vão à janela e percebam que não era assim há uma semana; que não há profissões menores - apenas menorizadas pelo sistema; que a família, os amigos e animais são de uma importância extrema sem os quais a vida custaria muito mais; que a comida não cresce nas prateleiras de supermercado; que os atos individuais importam no contexto da comunidade.

Ficarei terrivelmente desapontado se depois do que vou chamar oportunidade, em que muitos milhares estatisticamente já estão mortos, voltarmos ao mesmo, ao cada um por si, à poluição e consumo desenfreado, a menorizar o outro, e a um mundo em que a educação e a saúde não sejam a prioridade. 

Lembrem-se que foi declarado estado de emergência climática a torto e a direito e que há um Acordo de Paris, mas pouco impacto teve. Hoje, devido a um microorganismo, criam-se movimentos extraordinários e tomam-se medidas extremas, no contexto de emergência e calamidade, para salvaguardar a vida humana. Porque é agora, está aqui. Meus caros, as alterações climáticas também são agora, e falta pouco para entrarem na fase de propagação exponencial.

O mundo precisava respirar e precisará sempre. Fernando Pessoa disse, num dos seus poemas, Senhor, falta cumprir-se Portugal. Eu presunçosamente digo, Senhores, falta cumprirmo-nos, que o dinheiro não se come.

15
Mar20

#FiquemEmCasa

Leonardo Rodrigues

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Pensei voltar ao blog por melhores motivos, mas vou falar do COVID19 porque, segundo os números, estamos a pouco mais de uma semana da situação de Itália onde, como na guerra, já têm de escolher quem vive e quem morre, ao mesmo tempo que têm dificuldade em armazenar todos os corpos. Este vírus vai mudar a forma como vivemos, pensamos o nosso espaço, trabalhamos e priorizamos coisas como a saúde, educação, alimentação e até, arrisco, as alterações climáticas.

É já inegável que o COVID se propaga com maior velocidade e mata mais do que a gripe, e que não enfrentávamos nada semelhante há pelo menos 50 anos.

Neste momento, a meu ver, com toda a informação que temos dos sucessos de Macau, Hong Kong  e Singapura, e o motivo do fracasso de outros, o Governo está apenas a adiar tomar medidas verdadeiramente restritivas e eficazes. Basta saber que, de acordo com Joaquim Ferreira da Faculdade de medicina, estimamos precisar de 5000 ventiladores e temos 500. Portanto cabe-nos a nós, se tivermos essa possibilidade, isolarmo-nos.

O tratamento, neste momento, consiste em aliviar os sintomas, mas não o conseguirão fazer para todos se não invertermos a curva JÁ, ONTEM. Na ausência de tratamento concreto, e com uma vacina a quase dois anos de distância, a atual escassez de recursos, a nossa maior arma é o isolamento social.

Se for verdadeiramente impossível ficarem casa, mantenham a etiqueta respiratória e as medidas de higiene adequadas, não viajem, evitem aproximar-se e cumprimentar pessoas - especialmente profissionais de saúde, ou alguém com notória infeção respiratória.

É tempo de organizar. Ligar 300 502 502 caso necessite esclarecer dúvidas relacionadas com a baixa por ajuda a familiares. Só em caso de sintomas, como febre, tosse, dores de garganta e cabeça, e falta de ar é que deve ligar para a linha SNS 24 - 808 24 24 24. Irão ser devidamente aconselhados. Por favor, não se desloquem fisicamente aos Centros de Saúde só com dúvidas e antes de triagem à distância. 

Se precisarem de ir ao banco, usem as plataformas online. Se puderem trabalhar a partir de casa, trabalhem. Se não tiverem de usar transportes públicos, não usem. Se precisarem falar com a família e amigos, caramba, alguns até têm mais do que um telemóvel. Se tiverem comida e medicamentos essenciais, não açambarquem. Ao açambarcar supermercados e farmácias, estão a criar oportunidades de contágio e sobretudo a impedir que outras pessoas tenham acesso a bens essenciais e medicamentos  - que esgotam rapidamente.

O paracetamol será como sempre um medicamento essencial para termos em casa, mas não precisam de comprar 100 euros desse artigo - como relatou-me uma amiga farmacêutica, já à beira da rotura, como os profissionais de saúde, com utilização das farmácias como supermercado.

É tempo também de serenidade, com certeza, é verdade. O vírus mata mais a população idosa, mas é egoísta da nossa parte não fazermos a nossa parte porque os outros é que serão afetados. 

Criei uma conta de Instagram @FiquemEmCasa, no seguimento do movimento "Stay The Fuck Home", como o meu contributo, em português, para este momento que exige tanto de nós.

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Ficar em casa, além dos benefícios óbvios na propagação de um vírus letal, permite-nos fazer coisas que temos adiado: conviver com a família, ler um bom livro, cuidar de nós, aprender algo novo. E, espero também, que nos faça perceber que fazemos parte de um todo precioso, frágil e esgotável. Como disse a Green Peace:

Quando a última árvore tiver caído,
quando o último rio tiver secado,
quando o último peixe for pescado,
vocês vão entender que dinheiro não se come.

A vida é mais importante. 

Informação em tempo real e de qualidade: http://www.cidrap.umn.edu/covid-19/maps-visuals

06
Fev20

Desmistificar os problemas da ZER, Zona de Emissões Reduzidas, em Lisboa

Leonardo Rodrigues

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Eu sou o primeiro, ou segundo, a apontar o dedo a qualquer iniciativa que faça mal à cidade onde vivo.  A iniciativa ZER - zona de emissões reduzidas - da Câmara Municipal de Lisboa só faz bem. Como todas as coisas que fazem bem, é preciso explicar o porquê -  um pouco como explicar a sopa, às crianças.

Primeiro, temos de deixar claro o que poderá continuar a ter livre acesso: ambulâncias, veículos de pessoas com mobilidade reduzida, residentes, cuidadores, detentores de avença de estacionamento e garagens, carros elétricos e motociclos. Além destes, poderão estacionar: veículos de cargas e descargas, tomada e largada de passageiros e outros lugares especiais.

O dístico de residente tem o limite de dois registos por agregado familiar, é verdade. Se têm mais de dois carros, e vivem na baixa de Lisboa, os meus parabéns pelo dinheiro extra do carro que vão vender - e condolências pela perda.

Sobre a calamidade de um máximo de 10 matrículas de visitantes, por cada residente... Bem, quantos de vós, lisboetas, têm 10 veículos particulares diferentes com visitas, por mês? Se forem muitos, poderão conviver nas novas ruas sem carros, sentados num dos novos bancos à sombra de uma árvore recém plantada.

No que diz respeito aos danos para o comércio, sem querer ir buscar exemplos à Holanda nem à vizinha Espanha, pensemos na rua Augusta que também já teve carros a circular e hoje parece que foi feita para ser pedonal. O comércio, assim como os negócios locais, não morrem - florescem.

Quanto à loucura das ciclovias, ficou claro que os lisboetas aderiram assim que passámos a tê-las juntamente com uma oferta pública de bicicletas. Não é só por saber que as viagens de Gira ultrapassaram um milhão em 2019, mas porque também ando de bicicleta e vejo a diferença. Lisboa tem 7 colinas, contaram bem, ainda assim as zonas onde não é preciso um motor para circular abundam. 

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E se estão a perguntar que maldade vai a Câmara fazer, eu digo: devolver-nos a cidade. Com medidas que almejam reduzir a poluição do ar e sonora, com menos carros e mais transportes públicos; expansão da rede ciclável - 5,7km - ; mais árvores e arbustos; passeios mais largos, e ruas só para pessoas - 4,5ha de espaço pedonal; entre outras, explorem aqui.

Se tiverem oportunidade, apareçam nas sessões de esclarecimento/debates a anunciar, de forma a contribuir para melhorar este projeto, que só peca mesmo por ser tardio e por não abranger ainda mais zonas da cidade. Estarei por lá a fazer campanha por mais árvores. 

Poderá ser estranho, mas, recuando no tempo, podemos ver um Terreiro do Paço e uma Praça dos Restauradores que serviam de estacionamento. Já dizia o Pessoa, primeiro estranha-se, depois entranha-se. Só depois disto é que estaremos mais próximos do mérito da Capital Verde Europeia. 

 

23
Set19

Uma família moderna: ser gay, casamento e afins

Leonardo Rodrigues

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Quando era mais novo, no meu mundo de fantasia, se pusesse de lado a ideia de que nunca me iria assumir plenamente, achava que iria casar. Embora a génese do casamento e de conceitos como a monogamia sejam essencialmente contratuais, assentes em coisas muito práticas como saber quem verdadeiramente é o herdeiro legítimo das terras, nunca olhei o casamento dessa forma. Especialmente porque os conceitos evoluem. 

Via o casamento como um direito que conquistámos, como igualdade no acesso ao que o casamento legalmente garante e, naturalmente,  uma forma de celebração do amor - curiosamente a dimensão historicamente mais recente do conceito. Queria isso para mim, caso encontrasse um amor tal que o justificasse, e claro, poder fazer um statement. 

Muitos amigos questionam-me sobre isso, afinal são 3 anos de relação, e, em anos gay - sim, tal coisa existe mesmo - , é muito tempo. Tenho deixado bocas abertas quando respondo que não é algo em que pense, que já não é o meu objetivo, embora por vezes brinque com isso.

Foi nesta relação, e como as coisas evoluíram, que percebi algo fundamental, o compromisso importa, mas é aquele que não está escrito em lado nenhum, o compromisso que simplesmente é. Disso, para mim, brotou um lar, experiências e uma memória comum, e surgiu algo que sentimos ser uma família. 
 
Chamamos família à vontade e à concretização de estarmos juntos, os 3 - temos uma "filha" de 4 patas - , apesar do que a sociedade definiu como sendo o caminho a seguir. A diferença de idades, sermos de locais completamente distintos, termos famílias antagónicas, formações e experiências de vida completamente diferentes, criaram uma equação aparentemente difícil. Acontece que isso nunca foi um problema, somos nós que de alguma forma escolhemos o que é problemático. Aliás, acho que estas discrepâncias são de uma riqueza enorme, afinal conseguimos construir um espaço comum abraçando a diferença, onde podíamos simplesmente ser, estar e fazer,  com amor, partilha e segurança recíprocos. É algo que um contrato, embora não seja de menosprezar, não garante.
 
Noto que na comunidade gay existem três segmentos, os que querem ir contra tudo o que foi sendo estabelecido, despojarem-se de todo e qualquer rótulo e reescrever tudo, os que querem fazer tudo como está escrito, e aqueles que, como eu, adoram o meio termo. Na verdade precisamos dos três, tanto para impulsionar a mudança como para a estabilizar. Quando dizemos que não nos identificamos nem com isto ou com aquilo, estamos a identificarmo-nos com a não identificação. Há sempre um rótulo, somos e estamos sempre situados algures. Cabe-nos, claro, escolher o que nos assenta, traz paz, propósito e felicidade. Ninguém está certo ou errado.
 
Identifico-me como sendo monogâmico. Isto não é dizer que me acho moralmente superior nem que penso menos das relações que não o são, nem que não possa mudar de ideias. Resulta o que resultar. Também não significa que me declaro cego perante pessoas atraentes, só não alimento isso além de belas amizades. Enquanto esta ideia começa cada vez mais a ser vista como castração e prisão, percebi que para mim era o oposto, sentia liberdade em não ter de procurar nem de seguir ideias fugazes. No passado, senti sempre um receio de estar a perder qualquer coisa, e, claro, já inventaram um conceito também para isso FoMO - Fear of Missing Out. Agora encontro liberdade em perceber que estou com a pessoa certa, no momento certo, em não ter de procurar - pelo menos neste campo. 
 
Podemos culpar a tecnologia, e as imagens que nos chegam até certo ponto, isto não tem que ver apenas com podermos conhecer pessoas como encomendamos pizzas, é algo que transcende isso, é medo de estar desligado, de não ter lido uma notícia ou até de ter perdido um tweet. Cada vez mais sofremos com isto, à medida que os nossos telemóveis e estilos de vida nos impingem que podemos ser e ter tudo, nos fazem questionar o que temos e criam a necessidade de estar todo o lado ao mesmo tempo. 
 
A verdade é que tudo o que referi aqui são conceitos que evoluíram. Está tudo desconstruido de tal forma que podemos construir em cima disso o que quisermos. São tudo ideias que nos fazem agir e sentir. Até mesmo as noções que temos de nós próprios e dos outros. Heteros e não heteros estão em "relações modernas", com fronteiras esbatidas e moldáveis.
 
Considero que o segredo de uma relação, seja de que tipo for, é simples: honestidade e ausência do medo de estar a perder algo. A partir do momento em que abrimos porta a essa ideia é como se um buraco se abrisse num barco, inunda-nos. Ah, e não esqueçam que o próprio "para sempre", que tanto medo cria, será para sempre uma verdade até deixar de o ser. 
 
 

 

 

05
Dez17

Airbnb e o futuro do turismo de aplicação

Leonardo Rodrigues

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Estou perfeitamente ciente dos aspetos negativos, mas nunca precisámos tanto do Airbnb como este ano. Tal como os hotéis, há de todos os gostos e feitios. Pode ser um quarto, um apartamento ou um palácio, com apenas um twist: conseguimos ter mais por um valor inferior. 

É mais conveniente ter uma casa emprestada, com tudo o que precisamos para uma estadia confortável e personalizada. Além de podermos cozinhar, o que pode ajudar a reduzir as despesas de viagem, muitos sítios já incluem o pequeno almoço. 

É uma plataforma que funciona, totalmente orientada para os futuros hóspedes. Os pagamentos são realizados na íntegra dentro da mesma, pelo que em caso de algo menos lícito o nosso dinheiro fica salvaguardado. Algo que me parece fundamental, ao contrário de sites como o Booking - que também utilizamos - , que apenas destacam a parte positiva dos comentários, o Airbnb mostra o comentário por inteiro de quem lá ficou. Só comenta quem utilizou, depois da estadia e pagamento.

Os anfitriões também podem dar feedback sobre as pessoas que hospedam, construindo-se uma verdadeira comunidade que permite transformar este serviço em algo mais seguro. Ficamos todos, desta forma, a saber com o que contar. 

A meu ver, nas terras mais reconditas, partilhar a casa que não é utilizada ou a casa de férias, com este turismo de aplicação, é praticamente inócuo e até serve como dinamizador da economia local.

Para entrarmos nos aspetos negativos, temos de nos debruçar nas grandes cidades ou naquelas que, por diversos fatores, sabemos que serão turisticamente apetecíveis. Aqui é que a porca torce o rabo: os senhorios escolhem progressivamente fazer numa semana o que fariam num mês, o que é lógico. Os turistas - até nós quando o somos - , preferirem o Airbnb também é compreensível.

Aqui começa o problema da habitação e dos transportes. Mas, como grande parte dos problemas, só existe enquanto quem pode não investe e legisla. É por isso que as soluções encontradas nos países a norte, que passam pelo mesmo, se tornam interessantes. Em certas zonas proíbe-se o arrendamento de curta duração, sem que a porca torça o rabo. Além de impostos, este tipo de alojamentos passam a incluir uma taxa turística superior no valor.

O ruído não deveria ser um argumento válido, é uma questão de civismo. Todos os Airbnb's que utilizámos este ano, localizados em prédios, proibiam festas. As cidades, novamente, não podem é ser tão brandas a lidar com o ruído. E, sim, Portugal e Lisboa são brandos a lidar com o ruído provocado tanto pelos vizinhos, como estabelecimentos e clientes. 

Quanto à destruição do setor hoteleiro, isso sabemos que não é bem assim, basta olharmos para a taxa de ocupação. Mais, alguns hotéis e hostels também disponibilizam os seus quartos na plataforma. Paralelamente, o Airbnb tem fomentado a criação de algumas empresas que fazem a gestão deste tipo de alojamentos.

A aplicação existe desde 2008, mas ainda não foi feito que chegue para permitir uma convivência saudável entre anfitriões, habitantes e turistas. Soubémos ontem de um acordo inédito entre o Airbnb e o Turismo de Portugal que visa pôr termo ao que não for legal. É um excelente passo em direção ao futuro, mas ainda vamos caminhar muito até lá, com ou sem vontade. 

31
Out17

Kevin Spacey, ser gay não é para as ocasiões

Leonardo Rodrigues

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Ontem, assim que acordei, percebi que se calhar o vilão Francis Underwood e Kevin Spacey não são assim tão diferentes. Digo isto por um motivo apenas, tentou criar uma diversão mediática para algo injustificável como é o assédio sexual, o que é agravado por ter sido dirigido a um menor.

Primeiro, começou por admitir que aquele seria um ato horrendo, e, embora não se lembre, pede desculpa. Depois, diz que as acusações o incentivaram a falar de outros assuntos, utilizando este momento para dizer que escolheu viver como homem gay, fazendo, por fim, um compromisso de auto análise. Felizmente não resulta para ninguém, nem pode.

Não sei se com isto esperou refugiar-se por detrás da comunidade LGBTI. A comunidade que há demasiados anos tem de ser uma comunidade. Que, há demasiados anos, tem de se demarcar de atos destes. Que, há demasiados anos, tem de explicar que pedofilia e homossexualidade não são a mesma coisa. Que, há demasiados anos, tem de explicar que o seu amor é válido. Que, há demasiados anos, sofre diariamente preconceito porque ama diferente. Que nunca escolheu nada disto.
Acho genuinamente que deveria tê-lo feito antes, pois há muito tempo que a janela está aberta. Ninguém tem de escrever a sua sexualidade na testa, é verdade, mas, enquanto figura pública com as responsabilidades que advêm da exposição, lamento que tenha escolhido este momento para o fazer, desta forma. A mensagem tende a misturar-se.

Ser gay não é uma escolha, muito menos para quando dá jeito, tal como não é ser heterossexual, Mr Kevin.

Foto: Netflix

 

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25
Out17

A dança da (in)competência

Leonardo Rodrigues

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Antes de mais, este não é um post a dizer a ninguém "és feio, mas sem ofensa". Temos todos uma parte menos bonita, até no que à competência diz respeito. E é disso que quero falar. 

Acredito que a todos devem ser dadas as mesmas ferramentas e oportunidades. Alguns pegarão nisto e irão transformar as suas vidas e as de outros. Outros, mesmo com mérito, nem sempre conseguem lá chegar. Há ainda uma outra esfera que, de forma geral, decide fazer uso do poder político. 

A política não se faz apenas no Estado, está em todo o lado, até nas reuniões de condomínio, e tem que ver com likeabiliy e saber usar a palavra. É o tal jogo de cintura. Seremos hipócritas se dissermos que nunca deixámos uma verdade incómoda no ar para que tivesse um efeito x ou y. 

Existem pessoas que não têm um talento nem capacidade especial, apenas isto, jogo de cintura nível ventre da Shakira. Embora este comportamento por vezes seja sufocante de observar, parece a mais natural dança de sobrevivência, em grandes empresas e no Estado. 

É com esta dança que, muitas vezes, aqueles à margem da competência sobem. Curiosamente, e com pena, nem sempre quem promove isto se apercebe e, pior ainda, quem está na base da cadeia alimentar não ousa dizê-lo. 

Talvez não tenha muito que ver, mas isto faz-me pensar num conceito de economia, chamado de Mão Invisível, a regulação natural e mágica da economia. Como que por magia, parece que deixamos tudo se auto regular, enquanto observadores passivos.

Atenção que sei que metade das vezes não é nada assim. Contudo, quero dizer que seja onde for, para haver uma mudança real, temos de nos juntar à dança, dando o exemplo, dançando e fazendo diferente. É a formula de sempre. 

 

 

 

17
Out17

As árvores vivem de pé

Leonardo Rodrigues

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A vida real não é um espetáculo de grandes planos e de música cinematográfica. Sinto, vez após vez, que os cenários que se descrevem como dantescos se apresentam assim perante nós. 

Pior, as pessoas que elegemos, sucessivamente, fazem o mesmo. Querem pareceres, relatórios, análises e, se ainda houver dinheiro, um desenho. Depois do frenesim mediático, tudo morre, ano após ano. E com a morte mediática, vem a morte da floresta e das gentes. 

Não temos de ir muito longe nesta curta linha de tempo, a Câmara de Leiria sabia que o pinhal necessitava de limpeza. Creio que tinham deixado para 2018. Agora que sobrou um bocadinho de pinhal, talvez mandem fazer um museu em 2020 - desde que, claro, não disturbe o OE.

A culpa não é exclusivamente da inoperância de quem tem meios e autoridade para atuar. É também das empresas com sede de lucro, de quem não faz nem deixa fazer com os terrenos, de quem não limpa, de quem suja, de quem não quer saber, e de quem acha por bem queimar centenas de anos. Como a mãe de uma amiga diz, "quando a lei é branda o homem é mau".

O eucalipto não tinha de ser um inimigo a abater, se não fosse a espécie predominante. É muito bonito termos meio milhão de proprietários florestais, mas corre mal quando temos menos de 16% de floresta pública. Sabemos que o sobreiro - embora existam espécies melhores - serve de "tampão", por causa da cortiça, mas o pinheiro e eucalipto ganham a discussão económica. 

Não tenho dúvidas de que vamos conseguir replantar, que temos conhecimento que chegue para recuperar, mas tem de haver uma completa reestruturação deste sistema. Não chegam palavras de ação sem a ação. Tal como as doenças, a solução mais eficaz, e barata, é prevenir. Além de ser tempo de punir, é de dar o exemplo. Temos de ir para a rua mostrar descontentamento, é verdade, mas também de sair para cuidar.

E, embora a lei tenha de ser dura lex sed lex, serve apenas de relações públicas, se a consciência de um povo não a acompanhar. Precisamos de uma mudança de consciência, precisamos que Portugal perceba que não comemos graças ao dinheiro dos 2% que a floresta alimenta, mas que 100% respira graças às árvores que, vivendo em pé, sem dias de folga, tornam o nosso ar respirável. 

 

 

13
Set17

E se o seu filho quiser experimentar um vestido?

Leonardo Rodrigues

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A resposta mais simples de todas é: pode ser que, noutra vida, tenha sido escocês. 

Porquê é que eu me lembrei de escrever tal coisa? Ora, uns pais no Reino Unido retiraram o seu filho da escola porque outro aluno, com 6 anos, foi autorizado a usar vestido. Acham que a escola os deveria ter consultado, acerca da vida de alguém que não está a seu cargo.

Muitas crianças, por todo o mundo, sentem que nasceram num corpo errado. Isto não tem nada que ver com orientação sexual. Por exemplo, pode haver alguém no corpo de uma rapariga, que sinta que é um homem, e que goste de mulheres. Aqui, mesmo necessitado de uma mudança, é heterossexual. 

E, por muito que nos custe a perceber, pode não ter nada que ver com isso. Pode simplesmente preferir usar um vestido, sem isto carecer de psicanálise. Realmente, e não me acusem de politicamente correto, se uma mulher pode usar calças, porque não pode o homem usar um vestido ou saia, se assim entender?

Quando era mais novo, lembro-me de dois dias em que experimentei coisas de senhora. Vesti um vestido, calcei uns saltos e pintei-me, ou borrei-me, de maquilhagem. Noutro, depilei tudo, até as sobrancelhas. Não tinha esta referência da minha mãe, ela apenas tinha os sapatos de salto guardados, nunca usou a bendita maquilhagem, com muita pena minha. Eventualmente, começou a pedir-me que lhe tratasse da manicura e, isso sim, foi um tiro pela culatra. 

A verdade é que quando vi o resultado não gostei, continuava a identificar-me com as roupas de sempre. Se tivesse sido doutra forma, acho que não haveria ninguém capaz de lidar com isso à minha volta, o que teria tornado tudo ainda mais complicado. 

Será que temos mesmo de ensinar a complicar a vida dos outros? Quando digo complicar, não estou a colocar em pé de igualdade o sentido crítico. Devemos questionar o que nos rodeia, e procurar saber mais. Nunca escolher isolar-nos a nós, ou outros, de uma questão que merece ser compreendida. Desconstruir, desconstruir, desconstruir. 

Para responder, pelo menos hoje, a uma questão que coloco aos outros, se o seu filho quiser experimentar um vestido, tem que agir com a naturalidade com que o deixa brincar com um carro, ou permite que leve a camisola azul para a escola novamente. Ninguém fez nada errado, apenas vamos todos crescer para ser o que sempre fomos, e é mais fácil se houver sempre apoio.

 

Deixo-vos a entrevista com os pais, à BBC:

 

 

 

25
Ago17

Um livro educativo não é um artigo de opinião

Leonardo Rodrigues

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Ontem ao jantar, porque a televisão trouxe novamente o assunto para dentro da sala, discutia-se os tais livros da Porto Editora. 

Em vez de ser criado um livro de atividades para x idades, criaram-se dois, separados por sexo. O mesmo faz-se com o gel de banho, com ao desodorizante, entre outros exemplos. Acontece que, nestes, mesmo mudando o rótulo a qualidade não fica comprometida. E, claro, está comprovado que esta estratégia de marketing consegue impulsionar mais vendas do que versões familiares - iguais. 

Sendo sempre o objetivo o lucro, segmentar os livros em termos de idade é compreensível, acompanha o desenvolvimento das crianças e torna o livro mais leve. Não sei se entendo uma segmentação em termos de sexo, mas mesmo dividindo desta forma, o mesmo não deveria ter um nível de complexidade diferente.

No livro da Porto Editora, além daquele labirinto simplificado, temos exercícios com menos opções para as raparigas e representações de tarefas tradicionalmente associadas à mulher e outras aos homens. 

Li, em vários sítios, comentários em que sentia masculinidades afetadas, outros consideravam o fim da liberdade de expressão. 

Tradicionalmente, e reavivando a memória, as mulheres ficavam em casa, não estudavam nem votavam. Mudar isto não for ser policamente correto, apenas correto.

Como o conhecimento não é desodorizante, deve ser igual. A nossa formação começa numa idade tenra. Não é justo uma menina ter de ambicionar casar e ter filhos, enquanto o rapaz ambiciona ser astronauta.  

Por uma série de fatores, cada humano terá as suas diferenças, quererá interessar-se por isto ou por aquilo, mas, no que à educação académica diz respeito, tem de lhe ser dado acesso ao mesmo. As oportunidades não se devem excluir. Um livro educativo não é um artigo de opinião. 

 

 

 

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