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LEONISMOS

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14
Fev19

Sair do Armário aka Coming Out, o nosso maior ativismo

Leonardo Rodrigues

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Há dias decidi ver um especial do Netflix, com a Ellen Degeneres. Mais para o fim, e desculpem o spoiler, ela conta um sonho com um pássaro que tinha a sua forma e que foi colocado numa gaiola. Esta gaiola, entre as grades, tinha espaço suficiente para o pássaro sair. Este pássaro também fui eu, o meu namorado, todos nós que damos cor ao arco-íris e à sigla LGBTI, e também qualquer pessoa que não se permite viver e aceitar plenamente perante os preconceitos de outros. Chegará o dia em que precisaremos retirar os rótulos que nos colaram e que nunca nos pertenceram. 

Vejo ainda muita indignação quando alguém, seja ministra ou ator, com uma plataforma e uma voz no espaço público, diz "sou gay" ou alguma outra caraterística que não encaixa. O argumento disfarçado de não fóbico - e que assume várias formas - é: não tenho nada que ver com isto, eles que o sejam na intimidade, eu não ando por aí a dizer que sou hetero, nem muito menos marcho por isso. 

Os meus mais sinceros parabéns. Não fosse nascermos num contexto em que a sociedade patriarcal e heteronormativa, sem dizer nada a ninguém, já espera certos definições para todos nós. Não são os heterossexuais que têm de se sentar com os pais e amigos e explicar que estão cansados de fingir ser quem não são, e, que embora tenham medo de ficar sem chão, precisam de viver plenamente a sua sexualidade, e o amor.

Nós temos de dizer, explicar, esmiuçar e arriscar. Se não o fizermos como damos as mãos sem medo? Como beijamos sem censura? Como constituímos famílias, se assim o quisermos?  Como construímos vidas confortáveis na nossa pele?

Imaginem que à vossa volta o ambiente só dava sinais de que estão errados, que não são aceites, e que a única forma de serem e explorarem quem são é em segredo, dentro de quatro paredes, no escuro. Simplificando, restam poucas alternativas: sermos quem somos em segredo e deixarmos a depressão tomar conta de nós, ou assumirmos o que somos com orgulho.

A honestidade de sermos quem somos publicamente, sem filtros nem máscaras é impulsionadora da mudança, o nosso ativismo constante. É dizer nós também existimos, e é sempre um convite à reflexão.

Acho que a minha mãe é um ótimo exemplo. Foi das últimas pessoas a saber. Quando lhe disse foi algo que lhe causou muito sofrimento, chorou por 3 dias. Analisando bem, nem ela sabia bem porque o fazia. Neste momento sei que ela não diria "se eu tivesse um filho gay, internava". O "adoro-te, filho" encerra os nossos telefonemas, e pergunta-me frequentemente como é que nós os 3 estamos. Ela sabe que não tem de concordar ou discordar, tem de viver e deixar viver. Reparem que não digo que trata melhor, mas trata igual, e esse tratamento vai expandir-se a outros. 

Para mim, foi saber que não o podia esconder de ninguém. Era o passo que faltava para ser livre. Para poder amar-me e amar. O meu corpo passou a pesar menos. Já podia dizer, pensar e escrever o que quisesse. Entendi que não precisava da aprovação de ninguém, mas que aprovar-me passava por ser transparente. 

As nossas sobrinhas, por exemplo, chamam-nos aos dois de tios, adoram-nos. Sente-se. Não estão preocupadas se não há uma tia. Com certeza não vão perpetuar certos preconceitos, nem educar, mais tarde, dessa forma. Comove-me, sim, pensar na sorte que tenho, prova-me que se formos honestos, desdramatizarmos e não educarmos para o preconceito, vamos sarando. 

Sempre que vou trabalhar num sítio diferente, chega-se a uma altura em que tenho de marcar posição, da partilha normal de vivências e ideias. Não é sempre ótimo, nem toda a gente reage bem, mas a tendência é isso dissipar-se, afinal não há problema, e temos de ser honestos, animamos qualquer escritório. 

Assim se diz ao mundo que existimos, que quem existe assim ou assado, o pode ser, à luz do dia. O que fazemos, dizemos, o que comemos e como tratamos os outros são formas de ativismo, impulsionadoras de transformações sociais. A luta não é dizer que somos mais, é dizer que não somos menos. Não é dizer que queremos mais direitos, mas que queremos os mesmos.

Só nos últimos anos da minha adolescência é que comecei a perceber que não estava sozinho. Passei de não ter referências nenhumas para encontrar o Brokeback Mountain numa prateleira de supermercado. Dos gays serem um nojo para podermos rir com o Modern Family. As pessoas começaram a contar aos pais e a mostrar ao mundo os seus coming outs. Agora, até o Goucha e o Rui podem ser um casal nas manhãs da TVI. 

Enquanto nos chegarem relatos de que uma transexual é espancada com um martelo no Brasil, banirem páginas de artistas que promovem a igualdade em Portugal, cortarem a garganta à alguém por ser gay na Argélia, e crianças estiverem a ter na escola uma experiência igual à minha na Madeira, temos de sair dos armários que nos construíram pelo mundo fora. Ao assumirmos a nossa verdade podemos ajudar o mundo a assumir-se, e assim reclamar espaço para todos.

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