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LEONISMOS

20 de Setembro, 2018

As relações não são para fracos

Leonardo Rodrigues

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Quando se escreve para os outros sobre as relações é sempre mais fácil falar sobre o lado cor de rosa com flores amarelas, mas deixamos - eu inclusive - as escritas do outro lado, apenas para nós, porque nos ajuda. Nem sempre são um texto inteligível e de agradável leitura, e talvez porque na verdade ninguém tem nada com isso. 

Quem diz que é bem mais simples ser solteiro e perseguir todos os pensamentos que aparecem na cabeça, tem a sua razão. As relações amorosas, tal como as nossas amizades, são de alguma forma um compromisso - uma coisa inventada por estes mamíferos que andam de pé - , e esta palavra parece medonha. Este compromisso não é estático, é um negociar constante, um ajuste de ideias, pensamentos e vontades. As relações são o meio termo por excelência. 

Vão existir dias em que não sabemos o que estamos a fazer, que nos esquecemos o que nos apaixona. Esquecemos que concordamos mais do que discordamos. Que as grandes coisas que fizemos - e fazemos - juntos são substituídas por todas as coisas pequenas que estão por fazer. Embora não existam dias iguais, por vezes parecem e fundem-se. Se acreditávamos que existiam coisas imperdoáveis, enganamos-nos. Há dias em que parece ser mais fácil sair porta fora. Mas também já foi mais fácil comer com as mãos, e agora come-se com talheres. 

Ficamos, não só pelo conforto, mas pela lucidez do que queremos e do que nos importa, pelo amor, carinho e amizade - sem medo de estarmos a perder alguma coisa. Porque criámos um espaço que não existe em mais lado nenhum. Porque os corpos sabem encaixar-se de noite. Porque por vezes olhamos para certas coisas e só um tem de verbalizar o que pensamos. Pode-se chorar, rir, sentir dor, partilhar os maiores disparates que nos apoquentam a alma e podemos despir-nos de todas as formas. Afinal de contas, as relações só morrem quando escolhemos morrer para as mesmas, sem ressuscitar. 

Já todos sabemos que não fazemos ninguém inteiramente feliz, e que nada nem ninguém o poderão fazer por nós. Ninguém nos pertence - a Oprah tem razão, é uma corrida desnecessária. Contudo, quando nos permitimos desenvolver este tipo de ligações, há aspetos das pessoas que se tornam um, mantendo a sua individualidade. Os casais que se mantêm no século XXI são uma verdadeira proeza da evolução.