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LEONISMOS

LEONISMOS

26
Mai17

Ser Pai (e Mãe) não é fácil


Leonardo Rodrigues

Podem dizer que tenho uma cadela e não uma filha, podem dizer tudo e mais um par de botas velhas. Como diria a minha mãe, só sabe quem passa. Quem vive a experiência. 

Ao longo da minha vida tive muitos animais de estimação, mas tinha-os na minha casa da Madeira. Estava sempre tudo bem, podiam escolher onde dormir, quando ir à casa de banho, comiam de tudo e tinham um sem fim de espaço. A Madeira é efetivamente um jardim com imensas possibilidades. Parecia que se criavam sozinhos com comida e amor. 

Isto é porque estes animais eram um género de sobrinhos. Eu ajudava com isto e aquilo, mas estava mais presente para a brincadeira e os afetos. Agora estou eu e ele na linha da frente, responsáveis por uma vida chamada Dóris. Não é uma sobrinha, é mesmo filha. 

Boletim de vacinas em dia, desparasitação, registo, comida boa, tempo para passear e brincar tudo check. Ontem, mesmo com tudo em check, algo estava errado, acordámos com a sala vomitada e a cozinha com cocó. Ela tentou fazê-lo em dois extremos da casa, pelo que não era uma desobediência, mas uma necessidade enquanto os papás dormiam. 

O passeio da manhã fez-se com diarreia. Quando regressei depois do almoço estava a vomitar água e claramente não tinha comido. Levei-a à rua, mais diarreia. Não queria voltar a entrar no prédio. Quando entrou, pouco tempo depois, começou a ganir e ir para o pé da porta. Lá fui eu de meias e chinelos correr com ela até ao jardim mais próximo. Disse à vizinha que já falava com ela. Isto repetiu-se por mais 3 vezes. 

Entretanto já tinha ligado ao veterinário e enviado fotografias do cocó, o que se revelou tranquilizante. Isto podia estar a acontecer por uma série de motivos. Era muito cedo para alarmismos. Para ajudá-la, deveria apenas moderar o consumo de água e fazer arroz com frango, sem sal. 

Eu não como carne, mas ontem à noite fui comprar peito de frango e lá fiz um prato diferente para cada um, para mim, ele e Dóris. A Dóris foi a única sem apetite. Custou-me imenso ver o cão mais afetuoso e energético que conheço assim. Embrulhei-a numa mantinha e tive a dizer-lhe que estava tudo bem sem saber. 

Hoje acordámos e a taça da "comida da panela" estava vazia. Acabaram-se os cocós moles e estava novamente elétrica. O que ingeriu e que fez mal já está fora dela. Agora vamos continuar atentos, mas isto foi, para mim, um valente susto. Ser pai não é fácil. 

 

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24
Mai17

Salvámos a Dóris Carraça


Leonardo Rodrigues

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Não sei se devo reclamar capacidades premonitórias para mim, que, segundo reza a lenda, correm no sangue da família, mas vou.

Antes da mudança, e sem acreditar que ele algum dia quereria morar comigo, sugeri um cão e mil visitas ao canil. Na casa que chamei minha durante o último ano não era possível. Portanto, ele já sabia que, tal como o meu sistema de cultivo interior, mesmo aos meus cuidados, teria de ficar hospedado na dele. Lá adiou-se e por pouco não esquecia a ideia. 

Há cerca de um mês fomos uns dias para fora, mais precisamente nenhures. Numa das corridas que ele volta e meia me convence a fazer, separámos-nos para eu apanhar uma pinhas para a lareira, o que é como quem diz, descansar sem ser julgado. Quando o avistei novamente não estava sozinho, corria um cão atrás dele. E eu também corri desalmadamente pensado que ele ia ficar sem um bocado. 

Quando lá cheguei deparei-me com a coisa mais querida e inofensiva que alguma vez vi. Deitou-se à primeira festinha. Pensei logo, temos uma cachorrinha.  A amiga que entretanto alcançámos garantiu-me que ele estava rendido ao cão. Não me permiti acreditar. 

A cadela batizada recentemente de Dóris Carraça, embora sedenta de amor, estava suja, magra e, sem exagerar, com dezenas de carraças a devorá-la.

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Seguiu-nos até casa e, mesmo sem termos a certeza de que seria um elemento da família, fomos a um hipermercado, já que as farmácias da terra não tinham nada, comprar uma pipeta de Frontline, shampoo, coleira, trela e muita comida. 

Aproveitámos para passar na polícia e nos bombeiros com uma foto dela para sabermos se tinha sido dada como desaparecida, mas ninguém a parecia ter reclamado.

Comeu alarvamente a comida que lhe fiz, ainda não ama ração nenhuma. De seguida, tomou o que foi claramente o seu primeiro banho e tivemos a cata-la durante a ação do Frontline. O que é certo é que passou a noite à lareira e depois fez da nossa mala uma cama. No regresso, seguiu o carro. Pouco tempo depois, convidámo-la a entrar. 

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Está há um mês connosco, devidamente vacinada e registada. É muito amada por nós e pelas pessoas do bairro. Tem uma sala imensa, a cozinha e a varanda para brincar, e roer enquanto estamos fora. Vai à rua durante várias horas, em três momentos. Não falta abrigo, nem comida nem água. O rabo dela, segundo os indicadores de felicidade dos cães, diz que é uma cadela muito feliz com os novos papás. E nós com ela.

Por favor, não deixem as vidas pelas quais são responsáveis sem um responsável. Nem nesta época de férias nem nunca. Eles só podem contar connosco e não vão sempre encontrar um novo lar.

 

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Antes que o post acabe, a Dóris também foi ao aeroporto para receber o Salvador Sobral. 

 

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20
Mai17

As paredes agora são nossas


Leonardo Rodrigues

A cadela que entrou nas nossas vidas, para ser a nossa versão de filho adotivo, finalmente adormeceu, o que significa que me posso deitar no sofá. Assim foi ontem. Deitei e olhei em frente, e é impossível não reparar no poster emoldurado de um concerto do Rufus Wainwright, algo que me trouxe flashbacks. Claro que não são flashbacks do Rufus, afinal só o vamos ver no fim do mês. São flashbacks da minha vida, tudo o que aconteceu, a um ritmo cada vez mais rápido, até ao momento de agora. Faz-me pensar numa canção triste e melancólica, por vezes poética, que não sei qual é, mas que chega ao refrão e ganha vida, atinge o clímax e está tudo bem. Sinto-me no refrão da minha canção. Existem tantas coisas que desenhei na minha cabeça e que ainda não se materializaram, mas estou, ao fim de muita tentativa e erro, a partilhar a vida com um ele sólido, nas paredes que passaram a ser nossas. Ponderei bem, tinha dúvidas e queria escrever que ainda as tenho, mas tudo parece certo e natural. Nosso. Como se esta canção já estivesse escrita para legendar o meu desenho. 

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21
Abr17

Ser vulnerável numa relação


Leonardo Rodrigues

As emoções que surgem em nós como sendo as piores, as mais arrebatadoras, capazes de desenterrar o que enterrámos bem fundo, podem ser as melhores. E, como tudo, é mais fácil de ver quando acontece com o outro. Não o digo com sadismo. Recentemente a pessoa que mais me importa teve um dia inesperado, aliás, completamente oposto do esperado. Eu sei que tudo depende do poder que concedemos às coisas, mas aquela importava-lhe especialmente. Eu, que acho que tenho sempre alguma coisa para dizer e embora arranje sempre alguma coisa reconfortante, fiquei demasiado self conscious e não tinha as palavras. Queria ajudar sem magoar, então dei por mim a concordar com a história que ele se impunha, sem lhe dizer os clichés necessários. Apercebi-me a tempo que não era necessário dizer nada de maior além de que é ok estar assim e que podia deixar-se estar. Mostrei-me presente e disponível para a vulnerabilidade dele. Estar lá e segurá-lo era tudo o que era necessário naquele momento, só depois é que lhe disse o que era a minha perceção do que estava a acontecer e o porquê de talvez não ser assim tão mau. Primeiro partilhar a dor em silêncio, depois já tinha as palavras. Esse momento de partilha foi muito poderoso para mim e acho que para nós enquanto casal. Dos momentos mais importantes. Termos permissão para sermos tão vulneráveis como momento nos exige, sem filtros, é intenso, mexe-nos por dentro e solidifica-nos. É amor.

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15
Fev17

Dizer amo-te


Leonardo Rodrigues

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Já tinha este post nos rascunhos há uns dias e hoje, após o dia que encheu o meu refeitório de corações, parece-me boa ideia concluir.

Há quem diga e julgue que os gestos falam mais alto do que as palavras. Como se alguma coisa pudesse significar mais do que palavras, do que uma palavra. Isso só é válido quando se banalizam as palavras, especialmente uma que, em tão poucas letras, pode significar tanto: amo-te. 

Por vezes agimos de uma forma que não queremos, da mesma forma que dizemos coisas que não sentimos. Agir contra a nossa natureza custa. Curiosamente, proferir o que realmente pensamos e sentimos também, sente-se uma pequena dorzinha.

Dizer amo-te, saíndo bem lá do fundo, é cirúrgico. Para mim, é quase como se sentisse que o meu peito se rasga para sair de lá dentro algo muito intimo. É sincero. Por outro lado, quando me é dito continua a acontecer algo de extraordinário em mim. Num episódio recente foram as lágrimas que começaram a cair apenas por o ouvir. Sem soluços, só um calor imenso. Afinal, o quão valioso é amar reciprocamente?

Pareceu-me que, à minha volta, de tanto se ouvir e dizer palavras como esta, retira-se o som das mesmas e, por consequência, perdem o seu significado e efeito. Criar um dia que manipule a economia das palavras e dos gestos deixa-me a pensar.

Olhem, sou por dizer menos e significar mais. Que se demonstre tudo, mas sem gastar a grandiosidade das palavras e das emoções. 

 

 

 

26
Set16

Chronos do coração


Leonardo Rodrigues

Estou a escrever este post a acreditar que me vá fazer sorrir no futuro, como descobri que fazem os diários. É uma conclusão precoce para primeira linha, mas não vou reformular.
Este blog para mim ainda é novo, indisciplinado, tanto na forma como no conteúdo, especialmente na velocidade com que se escrevem os posts, que, por vontade minha, não podem ser apenas vomitado de rascunho. Ainda assim, já me deu algo que vale mais que dinheiro: pessoas. Escrevi apenas o suficiente para poder escrever hoje.
Graças a um post, comecei uma colaboração igualmente indisciplinada com o dezanove. O que, por sua vez, levou-me, no dia 18 de junho, à Marcha. Dei por mim a marchar lado a lado com o D. Não tinha bateria, e, ele, sempre pronto a ajudar toda a gente, gravou a entrevista que estava a fazer e até colocou questões. Aqui criou-se a desculpa para manter contacto, afinal precisava do áudio. Pouco tempo depois, não sei bem como, estávamos a fazer tudo juntos e fazia sentido. Quase cem dias depois, ainda faz.
Gostava de escrever que soube logo, que foi amor à primeira vista, mas na altura tudo que percebi foi que era fácil falar com ele, que havia substância, que a forma como ele se ria me deixava com vontade de rir com ele, mesmo que fosse só por dentro.
Recentemente, colocou-se a questão do dia oficial. Foi fácil dizer 18 de junho, criava segurança, não envolvia um exercício de memória. Embora ele me tenha convidado para substituir alguém na ópera após possivelmente uma hora de marcha, interrompida por música, purpurinas e conversas paralelas, não é correto. Ele tinha razão. 
Sugeriu-me o dia em que fomos para o Meco, longe do mundo. Confesso que soube que queria estar com ele nesse dia, entre o carro que ficou atolado  - e do qual tanto gosto de dizer mal  - e enquanto ele me lia Os Números que Venceram os Nomes, do Samuel Pimenta. Soube-me a um ingrediente que nem sempre consigo saborear: felicidade. Podia acabar tudo ali. Se no parágrafo anterior lhe dei razão, aqui retiro-a toda. Esse não pode ser o dia. Embora apetecesse, nenhuma fronteira foi trespassada.
Os dias na minha cabeça, por muito que custe a admitir, misturam-se bastante. Geralmente a minha memória está mais associada ao que senti. Não tenho um diário e o meu blog só o quer ser às vezes. Olhar para fotografias que faço permitem-me manter o rasto.
Foi através de uma fotografia que consegui chegar à data em que se ultrapassou a fronteira. Foi ultrapassada no dia 10 de julho. Nesse dia demos as mãos enquanto víamos televisão e que ele beijou-me. Depois Portugal ganhou, não querendo propriamente reclamar os louros, é demasiada coincidência.
Este mês, depois do meu trabalho de investigação, decidi dar-lhe algo inútil, mas que tivesse significado, para assinalar a data. Aconchegado num jornal da Cinemateca, ofereci um quadro com o elétrico 28. Expliquei-lhe o porquê da moldura, daquela pintura, mas ele só deve ter fixado metade da história. Para além de estar sempre atrasado como eu, temos uma memória aleatória. Por isso vou contar a história novamente.
Estando eu bem estabelecido em Lisboa, a passear na baixa, na minha companhia, deparei-me com um rapaz que desenhava com uma caneta e coloria com aguarelas. Não era nenhum Warhol, as peças eram únicas, não massificadas. Uma dessas peças retratava algo que, sem turistas, é mágico: o elétrico 28. Há uns anos, certo dia, entrei pela primeira vez no elétrico 28, no bairro da Graça. Nessa viagem, com a cabeça a querer sair da janela que se puxa para cima e permite tocar no que a mão alcançar, percebi, entre um turbilhão de sentimentos, que tudo estava bem, que estava no sítio certo. Estava em casa. Tive que comprar, mas nunca deixei o quadro à vista por muito tempo. Estava guardado para quando fosse necessário. 

Estar com alguém, especialmente com ele, acaba por ser uma viagem, como a daquele dia no elétrico, desperta um turbilhão de emoções contraditórias, mas sinto-me em casa e encontro-me nele.

Ontem tive outro aha moment, quando estavámos a jantar um prato simples que, sem modéstia nenhuma, estava divinal. Nunca mais tínhamos parado para jantar assim, até porque o tempo não pára. Ver a rotina concretizar-se, com ele, faz-me sentir em casa. Amor, para mim, aqui e agora, é isso: sentir-me em casa. Não conheço melhor sentimento do que pertencer. 

Antes perdia muito tempo com medo do Chronos, que, alegoricamente, engolia os filhos, para dar conta da fome que o tempo tem em devorar tudo. Hoje apetece-me ser feliz, independentemente do que tempo e os números acham, e socorrer-me de cronologias apenas para saber quando celebrar. Celebramos o nascimento, sem qualquer vontade de celebrar a morte. Logo acertamos contas. 

 

É interessante olhar para este post e perceber que em tempos falava melhor do que escrevia. Isso inverteu-se. Não consegui dizer tudo quando ofereci o presente. Acho que tenho medo das palavras ditas. Estão sempre mais calmas nos meus dedos do que na cabeça, lá gritam e atropelam-se.

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